Historical Background


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Introduction

 

Com o movimento humanista surgido na Europa a partir de finais da Idade Média, a produção e difusão do conhecimento deixou progressivamente de ser um papel predominante da Igreja. Além das sociedades aristocráticas laicas que cultivavam tanto a ciência como as artes, a Reforma Protestante também foi um factor que patrocinou um novo saber distanciado das tradições medievais da Igreja Romana.

No campo do ensino da música, os longos tratados especulativos passaram a cada vez mais dividir o espaço com pequenos compêndios que transmitiam de forma muito direta os rudimentos da teoria musical para uma rápida assimilação do conteúdo apresentado. Através de poucas instruções, esperava-se do leitor a capacidade de dominar elementos básicos que o permitissem mais rapidamente interpretar a música polifónica.

 

Marin Mersenne: Harmonia universelle (1636) © HEM – Genève, 2018

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Muitos destes compêndios publicados nos séculos XVI e XVII, sobretudo aqueles que surgiram no espaço cultural da reforma luterana, tinham a interessante característica de apenas tratar da polifonia, ao contrário da tradição dos tratados latinos que abordavam previamente todos os elementos do cantochão.

A metodologia utilizada por estes tratados revela a importância da prática do cânone na assimilação da música mensural desde as primeiras lições de solmização até questões mais complexas como das proporções e modos. Se, por um lado, a linha melódica do cânone pode ser vista e estudada na forma de uma monodia simples como o cantochão, assegurando-se a facilidade do aprendizado, por outro, a prática da polifonia desde o contacto inicial com a música torna o desenvolvimento da linguagem do contraponto ainda mais natural.

 

 

Num contexto da prática em conjunto, por exemplo, a aprendizagem de um cânone pode ser feita inicialmente de forma colectiva de uma única voz (dux ou guida), com uma grande flexibilidade na adição progressiva das restantes vozes (comes ou consequentes).

Historicamente falando, estes compêndios visavam na formação de cantores que viessem suprimir a necessidade das celebrações musicais de diversas igrejas. Do mesmo modo que a mais simples celebração católica requeria ao menos o cantochão, no contexto da prática das igrejas luteranas, requerer-se-ia a execução de uma polifonia simples a quatro vozes.

Sendo que estes cantores iniciavam o seu aprendizado musical ainda na infância, o cânone tornou-se um elemento facilitador neste contexto da música polifônica pela possibilidade de ser realizado a várias vozes com crianças da mesma idade.
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Johann Walter (1542):

“26 fugas [cânones] nos
oitos modos a duas ou três
vozes para instrumentos,
especialmente cornetos, de
igual tessitura, direcionadas
aos jovens por serem
especialmente fáceis de se
executar e praticar.”

A impressão musical nos séculos XVI e XVII também se mostrou como questão extremamente prática a ser levada em conta que, mesmo não sendo propriamente pelas vantagens musicais do cânone, influenciou na disseminação dos cânones neste período. A impressão de uma única voz certamente tornava o processo mais barato do que a montagem dos tipos móveis em diferentes vozes, além da própria economia de papel.